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Pesca artesanal no Nordeste: safra de camarão e preços no mercado

Barcos de pesca artesanal no Nordeste

Na feira do Peixe, em Recife, o camarão chegou antes do sol na terça-feira. Caixas empilhadas, gelo derretendo rápido, pescador contando nota com as mãos ainda salgadas. A safra deste mês animou colônias de Pernambuco e Alagoas — mas quem revende no mercado diz que o preço oscilou tanto na semana que ficou difícil planejar a compra do restaurante.

Roberto Almeida passou três dias entre Recife, Porto de Galinhas e Marechal Deodoro ouvindo quem vive do arrasto artesanal e de quem compra na primeira mão. A história que emerge não cabe em "preço subiu" ou "preço caiu": é uma rede de gelo, combustível, maré e feira que funciona no relógio do oceano, não do aplicativo de delivery.

Uma safra que surpreendeu

Pescadores de Tamandaré relataram volume acima da média para junho — mês que costuma ser de transição entre períodos de defeso. A associação local atribuiu o resultado à combinação de mar calmo na primeira semana do mês e temperatura da água favorável à proximidade dos cardumes.

Em Marechal Deodoro, Dona Raimunda, 61 anos, disse que o barco do filho voltou com quase o dobro da captura habitual em duas saídas. "Deu para pagar o motor e ainda sobrar gelo", contou, mostrando caderno onde anota despesa de cada viagem desde 1998. O caderno é a planilha real da pesca artesanal: sem nuvem, sem backup, só lápis e memória.

Na feira, a conta muda a cada hora

Revendedores no Mercado de São José, em Recife, descreveram outra realidade. Na segunda de manhã, o quilo do camarão médio estava entre R$ 38 e R$ 42 — dependendo do tamanho e se o comprador levava caixa fechada. Na quarta, com mais barcos chegando de Alagoas, o preço caiu para perto de R$ 32 em algumas bancas.

"Eu compro às quatro da manhã sem saber quanto vou vender às dez", explicou Marcos, que abastece três restaurantes no Boa Viagem. Ele reclama que o cliente final só vê a etiqueta final e acha que o intermediário "está ganhando demais". Na prática, gelo, perda por derretimento e frete do litoral sul até a capital comem boa parte da margem.

Restaurantes entre o cardápio e a incerteza

Em Porto de Galinhas, cozinheiros de barraca na praia disseram que mantiveram o prato de camarão no cardápio, mas reduziram porção quando o quilo passou de determinado patamar. Um deles, Sérgio, preferiu ser direto: "Ou eu mudo o prato ou trabalho no prejuízo. Não tem mágica."

Hotéis all inclusive da região costumam contratar fornecedores com preço travado por temporada. Pescadores artesanais, porém, raramente entram nessa cadeia — vendem na feira ou para atravessadores que assumem o risco da oscilação. O descompasso gera atrito: pescador comemora safra; restaurante de médio porte não sente o alívio na mesma velocidade.

Defeso, documentação e o que vem pela frente

Técnicos da colônia de pesca lembram que períodos de defeso ainda valem para certas espécies e que fiscalização aumentou em portos menores. Barco sem documentação atualizada não embarca — regra que protege estoque, mas também atrasa saída de quem depende do dia a dia.

Para julho, a expectativa é de normalização do volume, com possível alta de preço se o tempo virar e reduzir saídas. Associações pedem às prefeituras litorâneas feiras itinerantes em bairros periféricos de Recife e Maceió — argumentando que aproximar produto do consumidor encurta cadeia e estabiliza valor.

O retrato de quem trabalha no cais

O que fica depois da visita é gente que conhece maré de cor. Pescador que acorda às duas; mulher que classifica camarão no cais com lanterna no chapéu; feirante que já sabe o nome do filho do cliente. A safra boa é notícia econômica, mas também alívio doméstico — conta de luz, parcela do barco, festa junina da escola.

O Maré seguirá acompanhando preços nas feiras de Recife e Maceió nas próximas semanas. Envie relatos da sua colônia de pesca para [email protected].

Atualizado em 8 de junho de 2026 com cotações do Mercado de São José e depoimentos de Marechal Deodoro.