Turismo em Florianópolis: como moradores lidam com alta temporada
Junho em Florianópolis já tem cheiro de fogareiro e fila no mercado. A ilha ainda não está no pico de janeiro, mas a alta temporada começou mais cedo este ano — feriados prolongados, promoções de passagem e um fluxo constante de visitantes que transforma bairros de praia em cenário de duas velocidades: quem chega de mala e quem vai buscar pão no mesmo mercado lotado.
Lucia Schmitt mora no bairro Campeche há onze anos. Para esta reportagem, caminhou de bairro em bairro ouvindo moradores, síndicos, donos de mercearia e motoristas de aplicativo. Ninguém pediu fim do turismo — mas quase todo mundo pediu reconhecimento de que a ilha não é só destino: é casa.
A ilha que enche e esvazia
No Campeche, a queixa mais comum é trânsito na estrada do acesso à praia. Vizinhos relatam que o trajeto de dez minutos até a padaria pode levar quarenta em domingo de sol. Motorista de aplicativo Rafael disse que aceita corrida para a região "só se valer a pena" — o retorno costuma ser vazio, preso no congestionamento.
Na Lagoa da Conceição, o tema é barulho. Casas alugadas por temporada viram ponto de festa até tarde; moradores antigos organizaram grupo de WhatsApp para registrar horários e acionar fiscalização. "Não somos contra diversão. Somos contra acordar três noites seguidas com som de caixa de subwoofer", resumiu Patrícia, professora que trabalha de manhã cedo no centro.
Aluguel por temporada e vizinhança
O aluguel de curta duração mudou a cara de ruas inteiras. Imóveis que antes tinham família fixa agora alternam hóspedes a cada semana. Para alguns proprietários, é complemento de renda essencial; para inquilinos de longo prazo, é pressão de mercado que empurra para longe da orla.
Síndico de condomínio no Ingleses contou que elaborou cartilha de boas-vindas — lixo, horário de silêncio, estacionamento — entregue a cada check-in. A medida reduziu reclamações, mas exige trabalho voluntário de moradores que já administram o prédio sem receber por isso. "A cidade ganha com turismo; o condomínio não ganha ajuda para mediar", observou.
Comércio local: fila boa e fila ruim
Merceeiros dividem opinião. Dona Cida, no Rio Tavares, disse que junho já pagou a conta de luz do mês: turista compra água, carvão, tempero. Outro comerciante, no Córrego Grande, reclamou que visitante enche carrinho de promoção e some em janeiro, deixando o bairro vazio até o próximo feriado. "Eu preciso de cliente o ano inteiro", afirmou.
Feiras de artesanato e barracas de praia têm narrativa parecida: temporada salva o ano, mas dependência única é arriscada. Artesã que vende no Pântano do Sul contou que passou a oferecer oficina para moradores na baixa temporada — forma de renda e de vínculo com quem fica.
O que a prefeitura diz — e o que falta
A prefeitura anunciou reforço de transporte coletivo nos fins de semana de junho e julho e campanha de orientação a hóspedes sobre descarte de lixo em praias. Moradores ouvidos pelo Maré consideram as medidas úteis, mas pontuais. Pedem planejamento de estacionamento em bairros saturados e diálogo com plataformas de aluguel por temporada — tema sensível, sem consenso fácil.
Estudantes de turismo da UFSC, consultados para esta matéria, lembram que Florianópolis cresceu como destino sem revisão proporcional de infraestrutura em bairros residenciais de praia. O debate não é novo; o que mudou é a intensidade e a duração da temporada.
Morar na ilha fora do cartão-postal
A conversa que mais ficou foi com Seu Nelson, 74 anos, pescador aposentado no Ribeirão da Ilha. Ele disse que gosta de ver movimento — "ilha parada não tem futuro" — mas sente falta de quando conhecia o nome de quem sentava no banco da praça. Hoje passam mil rostos. Alguns acenam; a maioria segue para a foto do pôr do sol.
Turismo em Florianópolis não cabe em "bom" ou "ruim". Cabe em fila no mercado, em reunião de condomínio, em estrada engarrafada e em conta paga na mercearia de junho. O Maré continuará ouvindo moradores ao longo da temporada. Conte sua experiência para [email protected].
Atualizado em 7 de junho de 2026 com depoimentos do Campeche e Lagoa da Conceição.